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Tuesday, 1 January 2013

2013 já nos bateu à porta

Já fui apanhar ar fresco.
Está saturado do ano anterior.
Acho que o país acordou a dormir, neste novo 1º dia, deste novo ano.
Ai de quando acordar do sono!
Vai ser de pesadelos.
O primeiro dia de um novo ano pode ser tão bom como outro qualquer, para começar uma nova vida velha.
Não se iludam.
As inconstitucionalidades são as antigas, sempre parecidas com as outras, embora nunca iguais, porque o sacanço começou cedo, logo que as utopias se reconverteram em realidade, mas viu sempre o seu índice a aumentar. Vá, está bem, foi mesmo antes disso.
E não nos esqueçamos: a primeira grande inconstitucionalidade foi ter-se criado um sistema para o qual o país não estava constituído.
O 25 de Abril nem sequer viu o rascunho preparado em papel pardo.
Deu flores de um vermelho tão lindo mas, por isso mesmo, demasiado feminino, demasiado sentimental, demasiado coronário para se chamar revolução de militares.
Militar que se preze tem barba de cima a baixo, anda de arma aperreada, faz planos estratégicos e de acção, conta canos e almas, sabe onde e quem são os corpos que vão levar a alma nacional à podridão.
Não os deixa germinar.
E deixou que nascessem democracias a mais, para este povo que tinha amargurado 50 anos de cada vez, desde que o nosso Afonso puxou da estalada maternal, sempre em silêncio, sempre sem saber pensar, sempre sem poder pensar, sem nunca ter aprendido a decidir, sempre deixando às linhas azuis que se decidissem por ele.
Já fui apanhar ar fresco, mas acho que ainda estou com pesadelos do ar saturado do velho ano.
Ai de quando acordar!


Monday, 31 December 2012

2012 ESTÁ-SE A APAGAR, VENHA 2013

Ao longo da minha vida, mas desde muito cedo, tenho tido um crescente desprezo pela maioria das convenções, quaisquer que sejam a natureza das mesmas.
Claro que mais de umas que de outras, que o desprendimento das raízes não se dá de uma só vez.
E sim, claro, nem sempre praticando o desprezo que me merecem, porque a carga social que me rodeia não mas deixa ignorar. Cremos, ouvimos e lemos.
Num longínquo dia de 4 de Outubro de 1582, uma Quinta-feira, do então praticado Calendário Juliano (que por sua vez já tinha feito mais do mesmo), as pessoas deitaram-se à noite em lareiras que começavam a aquecer o tempo frio que se iniciava por esta Europa, para acordar, na manhã seguinte, numa Sexta-feira (la Palisse não o diria melhor) mas, pasme-se, com o calendário a marcar o dia 15 de Outubro.
As pessoas, numa dormida, deixaram de viver 10 dias. Ou, numa perspectiva positiva, em menos de um segundo, viveram dez dias.
Desde então, o Calendário Gregoriano foi avançando por este mundo que Deus nos deu, e foi-se impondo às regras do Universo, muito menos mesquinho na forma de contar o tempo, que não se deixa levar por uma contagem cíclica, com tons de música linear, como se as “Spring, Summer, Winter and Fall” marcassem as células que nos matam aos poucos e determinassem o indeterminável.
Hoje, mas podia ser só daqui a uns dez dias, ou podia ter sido a 21 de Dezembro, ou noutro dia, consoante a hora e o local religioso que estivermos a praticar, convenciou a Bula Papal Inter Gravissimas, de Gregório XIII, lançada ao vento a 24 de Fevereiro de 1582, que vamos todos encher a internet com despedidas de 2012 e passarmos as badaladas das 12 passas de uva para 2013.
Em cima de uma cadeira, com um pé no ar, com muito champagne, algumas bebedeiras, umas leves, outras de caixão à cova, muitos abraços e sorrisos e alegrias, entre abraços e beijinhos entre amigas e amigos e caras que nunca vimos, tudo num desafio de ficção universal.
Afinal, nada mais se passará que um relógio a marcar compassos de segundos em sequência precisa, monótona e chata, sessenta serão eles, a que se seguirão outros tantos de cada vez.
E eis que, entre o último sexagésimo segundo do convencionado 2012 e o primeiro dos primeiros sessenta segundos do convencionado 2013, se ouvirão tambores a rufar, cores a explodir pelos céus, música a obrigar os corpos a rolar, algum dinheiro gasto para isso, para alguns muito dinheiro gasto.
Afinal, no relógio, nada mais se passará de diferente dos restantes dias.
Será mais um novo dia, desta vez com o peso de um Novo Ano na contagem do Gregório, que vai levar muita gente a chamá-lo, noite fora e dia dentro.
Saiam bem deste traiçoeiro 2012 que nos foi imposto, preparem-se para o imposto e os impostos que chegam com o convencionado 2013.
Vamos à festa?
Tenham uma boa saída de 2012 e votos de um 2013 sem ciclos, nem linearidades.


Thursday, 26 July 2012

A divagar se vai longe - 1

O Rei-Artista, para os amigos mais íntimos Fernando Augusto Francisco António de Saxe-Coburgo-Gota-Koháry, tinha que vir lá de longe, donde têm a mania que somos periféricos, atrasados, sub-desenvolvidos, dum país de África que nasceu na Europa.
Porque não nos conhecem, nem conhecem África.
Só pode ser.
Ou será que nós é que pensamos que eles pensam isso?!
Para mal dos nossos pecados, resolveu dedicar-se a fazer coisas que por cá já de há muito não se voltavam a fazer.
E fez esta maravilha, a partir das cinzas.
Ainda bem que veio de longe. Ah como detesto invejosos!
Fernando, pá, volta de novo, e diz aos actuais mandões que, quem quiser vir fazer coisas neste país, não precisa ficar lá fora, nem mandar cá para dentro.
Que este mundo não é só política e dinheiro.

Maravilha magnética do romantismo, que não deixa ninguém indiferente.

Palácio Nacional da Pena - Sintra.DSC04000

Tuesday, 1 May 2012

1º de Maio, dia dos trabalhadores aflitos

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BALADA DOS AFLITOS

Irmãos humanos tão desamparados
a luz que nos guiava já não guia
somos pessoas – dizeis – e não mercados
este por certo não é tempo de poesia
gostaria de vos dar outros recados
com pão e vinho e menos mais-valia.

Irmãos meus que passais um mau bocado
e não tendes sequer a fantasia
de sonhar outro tempo e outro lado
como António digo adeus a Alexandria
desconcerto do mundo tão mudado
tão diferente daquilo que se queria.

Talvez Deus esteja a ser crucificado
neste reino onde tudo se avalia
irmãos meus sem valor acrescentado
rogai por nós Senhora da Agonia
irmãos meus a quem tudo é recusado
talvez o poema traga um novo dia.

Rogai por nós Senhora dos Aflitos
em cada dia em terra naufragados
mão invisível nos tem aqui proscritos
em nós mesmos perdidos e cercados
venham por nós os versos nunca escritos
irmãos humanos que não sois mercados.

Manuel Alegre
Nada está escrito – D. Quixote, Lisboa 2012

Thursday, 22 March 2012

GREVE GERAL

"O Grito", de Eduard Munch (apanhado pela net)
Escolas que estão abertas, mas a funcionar deficientemente, mas a funcionar, estão em greve geral?
Transportes públicos que estão em greve geral e que são pontos cruciais da e para a mesma, mas que estão parcialmente a funcionar, estão em greve geral?
Polícias sindicalizadas, que se presume estarem em greve, porque a greve é geral, mas que continuam a exercer as suas funções, estão em greve geral?
Os sindicatos e centrais, que dizem ter organizado a greve geral, mas aparecem a dar entrevistas aos meios de comunicação e a fornecer números a esmo ("... sim, houve grande adesão nesse sector, que será entre 70, 85 e 90% ..."), só dizem isto por estarem em greve geral?
O país que, desde sempre, se diz ser preguiçoso, estar povoado de piegas, deficiente eterno na produtividade, com empresários que pouco "empresariam" e muito embolsam, encontra-se em greve geral desde quando?
E quando é que os líderes das organizações sindicais darão a entender aos partidos políticos que os partidos não se devem envolver nas organizações sindicais, que entendem que os sindicatos devem percorrer caminhos distintos e, se necessário for, em confronto com os partidos, sem dependência nem colagem a qualquer que ele seja? Que o movimento sindical já não é nem pode ser o que era no início do século passado, que a revolução de 1917 já ninguem sabe o que é e o que foi, que os caminhos sindicais não podem cair na margem do conflito de interesses, porque só o será quando tiver que defender interesses próprios?
Hoje há GREVE GERAL?
E deveria haver ou não?

Thursday, 22 December 2011

É Natal, vem aí 2012

Nos órgãos do poder, faltam-nos homens com berço e com tomates!

Para mim, a quadra que estamos a atravessar – os dois natais, o de Jesus Cristo e o do novo ano, neste caso o de 2012 – contém uma força cultural que não se fica na tradicional carga religiosa. Ela transporta-me à criança que fui, nos tempos em que receber brinquedos era algo que acontecia uma vez ao ano, quando e para quem acontecia, e tinha-se que trabalhar o ano todo (portando-se bem e estudando q.b. – é certo que era uma chantagem nada efectiva, pois recebia-se sempre algo), desde o seu primeiro dia, para ganhar um brinquedo de madeira, de lata, com ou sem corda, cores coloridas, uma miniatura de carro, ..., mas também faz vibrar a criança que ainda me sinto ser.
Este ano, dei com a cidade menos alegre, menos vibrante.
Estamos com crises: económica, por conta de quem economicamente ficou bem, ou melhor, de vida, mas também, e acima de tudo, crise de valores.

Nos órgãos do poder, faltam-nos homens com berço e com tomates!

A cidade de Lisboa envergonhou-se de ser cristã. Falta-lhe luz e cor. Quase não se vê um motivo tradicional da época e, os poucos que se veem, não são da entidade municipal.

Nos órgãos do poder, faltam-nos homens com berço e com tomates!

(Declaração de interesses:
Sou católico, mas pouquíssimo. Ainda assim, acho que a matriz desta Nação milenar está a ser subvertida, avassalada pela onda da intitulada Constituição de uma União que não o é e se esforça por demonstrar que disso se afasta mais rápido que o Diabo da Cruz.)

AOS MEUS AMIGOS E VISITANTES DESTE CANTINHO, APRESENTO OS MEUS VOTOS DE

Natal de 2011


Thursday, 15 December 2011

Madeiras, offshores (??), dinheiros e legalidades

Não vi esta entrevista, dada ao autor do livro "Suite 605", quando passou na TV.
(Ainda) não li o livro, de João Pedro Martins, mas espero encontrá-lo rapidamente, para o comprar e ler. Um tema que contém muitos prós e contras, mas que é mostrado de uma perspectiva que me deixa com muita curiosidade em aprofundar além do que vi na entrevista.
De qualquer forma, acho que vão gostar de a ver.
Aqui fica.

Wednesday, 30 November 2011

Requiem ao 1º de Dezembro

Esta Europa nos atirou para o mar, esta Europa nos retirou o mar, esta Europa está a acabar.
Só nos resta nós e o mar, novamente.
Quase meio século de viragem, com quase meio século de atraso, distorceu-nos os caminhos e continua a fazê-lo, deixou-nos virados do avesso.
Embalaram-nos e deixamo-nos embalar por vidas fáceis, trazidas por dinheiro a rodos que agora nos vão custar vidas, mesmo que não se venham a ouvir tiros pelas ruas, e ninguém pode garantir que isso não aconteça. O cheiro da pimenta e da canela e do ouro nos entonteceu e nos levou a algum período de glória, mais ficcionada que real, e os bens que temos andado a comprar com o dinheiro que nos ofereceram, às fábricas que nos ofereceram o dinheiro, levou-nos ao abismo, num momento em que tudo se concerta para nem podermos respirar, esperando que caiamos inanimados pelo sufoco. Ainda por cima, alguns de dentro ajudaram a comer e sugar os de dentro. Espera-se a justiça da Justiça, para estes, ou outra mais radical, se ela não for feita, porque há actos que não podem ficar impunes.
Nesta Europa autofágica não temos, pelo menos por enquanto,  dimensão territorial e nem recursos para competir num mundo global, como nação milenar que somos e queremos continuar a ser.
Por isso, só nos resta sermos nós, como somos e como podemos ser, enquanto não fizermos crescer o potencial que temos e o aplicarmos cirurgicamente no que de melhor quisermos e pudermos fazer. E teremos muito mais do que se pensa, se quisermos pensar nisso a tempo e horas e de forma organizada, num todo, sem exclusões e pisadelas internas, sem pensarmos em continuar a ser bons alunos, nesta escola do mundo onde parece só andarem gandulos.
Esta Europa está a desfazer-se, empurrada pela inércia que desenvolveu à custa de enriquecimento fácil de alguns, por conta do empobrecimento de outros. Parou e não se adaptou às mudanças que imprimiu durante séculos, crente que se manteria rainha "per omnia secula seculorum". Quando já começava a cair, foi sugando o que a rodeava, dando ares de gigante, sempre a encher, até atingir o ponto de já nem aguentar com os seus ossos.
A Europa continuará a existir, mas as mudanças nesta Europa vão acontecer, vão ter que acontecer. Nada poderá ficar como está. Nada vai ficar como está.
Hoje, parece claro que este Euro já não tem pernas para andar - cortaram-lhe as pernas com tanta especulação e já nem se sabe bem quem especulou o quê e a quem – e, se sobreviver, vai ser mais como zombie, graças a mais artifícios que apenas o atirará para um trambolhão maior. Sem o Euro, deixa de fazer sentido estarmos ligados à defesa de interesses de outros, sem termos voz para defender os nossos interesses.
Bom seria que nos preparassemos para o que aí vem.
Bom seria que não nos ajudassemos a ajudar os outros a pulverizar este Jardim que os nossos antepassados compraram com muito sangue, muito suor, muitas lágrimas, com muita sabedoria política e diplomática. É a nossa casa. E, se não forem os da casa a tratar dela, ninguém o fará, mesmo que nos queiram vender a ideia de que vêm para ajudar.
Bom é que nos comecemos a preparar, a sério, para o caminho árduo que temos pela frente. Já não há tempo para brincar no intervalo, porque o intervalo já acabou.

2 - Vai ser preciso repensar a República e os seus valores.
Acabar com a carreira política como modo de vida.
Remunerar devidamente quem nela estiver, enquanto o estiver a merecer, por mandatos únicos, com prazo de duração suficiente para pensar no médio-longo prazo, sem deixar de atacar o curto-prazo.
À gestão incompetente do Estado, terá que haver sanção política, pelo menos. À gestão danosa e intencional no Estado, terá que haver ouro tipo de sanções, obrigatoriamente.
Para a promiscuidade entre os cargos e funções desempenhados na origem, terá que ser desenvolvido um eficaz filtro de destino.

3 - Vai ser preciso recriar instituições constitucionais funcionais que possam atravessar mares de tempestade que nos esperam, prontas a navegar contra todos os ventos, venham eles de que lado vierem.
Não precisamos de um tribunal constitucional para o que quer que seja, instituição com foros políticos, no que tem que ser apenas judicial, porque, se não é judicial, não tem que ser tribunal. Nem precisamos de ter agentes nos órgãos de justiça que fazem mais política e show-off nos meios de comunicação social que justiça.
Não precisamos de um presidente de república que não tenha poderes compatíveis com o de mais alto magistrado da nação. Nem que esse cargo seja ocupado como prémio de fim de uma carreira política, e que se estende por dois mandatos, com o primeiro a pensar ganhar o segundo, e neste a tentar matar saudades como chefe de governo.
Não precisamos de um chefe de governo que subjugue politicamente, através do partido político que lidera, os parlamentares da sua cor política, nem que exerça o cargo com lentes de míope, a olhar para o umbigo e para as eleições seguintes. Precisamos que, quem se apresente para esse cargo, nos apresente um claro Caderno de Intenções de Governação, que será escrutinado dia-a-dia.
Não precisamos de parlamentares que não têm vontade política própria, que por isso e nisso se escudam para não responderem políticamente a quem os elegeu, parlamentares que procedem à aprovação, na generalidade, dos projectos/propostas de leis que promovem em catadupa, e que, depois, correm para outra sala a aprovar na especialidade o que aprovaram e voltarão a aprovar em plenário, vestindo roupagens e almas duplas ou triplas, substituindo-se à natural existência de uma outra câmara com outros actores, a qual obrigaria a repensar o fabrico de leis, cujo poder de iniciativa, em exclusivo, devia estar no governo.
Num país com a nossa dimensão, não precisamos de regiões autónomas, que parecem existir mais para criar forças de desintegração do país, que para desenvolver o seu espaço em harmonia com o todo nacional, nem precisamos de órgãos de poder local que parecem ter existência própria fora do país e da sua legalidade.
Não queremos um Estado omnipresente, criando dependências em rede para tudo o que mexe ou que devia mexer.
O Estado deve permitir que a chamada sociedade civil se desenvolva sem que necessite em permanência que o Estado lhes forneça subsídios e lhes segure os riscos e os prejuízos, apenas descurando dela quando há lucros. Que a deixe sentir que tem que investir intra-muros, porque é cá que os filhos e netos e família e amigos vivem e deveriam sempre ter que viver, pelo que terão que colocar capitais financeiros nos cérebros que temos e nas instituições onde se podem desenvolver com esse capital (universidades, empresas industriais, etc), para podermos criar mais-valias que nos trazem melhores condições de vida a todos e de forma sustentada.
Terminar com a existência dessas máquinas a que se resolveu chamar Centrais Sindicais. Estão desactualizadas, são ineficazes, sorvem recursos escassos, não conseguem alcançar benefícios para a mole que deles realmente necessita, tão-só os alcançam para quem delas – centrais sindicais - não necessita.
Que se promova o associativismo na nação portuguesa. Nas áreas de residência, nas de exploração das respectivas actividades económicas e nas demais áreas sociais, em geral, para que cada um, em cada uma, se sinta incluído na nação, e que nela não entrem os que deviam estar excluídos – os oportunistas e os criminosos – ou, pelo menos, se tenha conhecimento onde eles andam.
Basta que a constituição seja a Carta que a Nação quer para ela, e não um texto cheio de lugares extra-constitucionais, de divisão e de consagração de portas que permitem iniquidades.

4 - Queremos leis que facilitem a vida a todos, por respeito natural a todos, incluindo muito em especial aqueles que foram vítimas de crimes, mas também as que regulam o resto da vida de todos nós. Leis que sejam simples, sem alçapões intencionais para artifícios dos espertos e dos que podem pagar, sem dificuldade, uma justiça que deveria ser paga apenas por quem perdesse as acções judiciais, porque a justiça é um dos bens que tem que ser obrigatoriamente de interesse público, e não somente de interesse económico-financeiro, a ser prosseguida pelo Estado para o Estado.

5 - Vai ser necessário defender o nosso território, não na perspectiva bélica, que neste momento nem com as canetas podemos (mas seria melhor pensar nela), mas do ponto de vista económico, em sentido muito amplo, e para isso apenas necessitamos de recursos humanos que apliquem o que de melhor as suas inteligências podem produzir.
Não entrar em lirismos de poupança na despesa pública, só porque sim ou porque é moda. Como exemplo, misturar a cultura aduaneira com a fiscal, debaixo de um DG com uma dúzia de Sub-DGs, foi do mais bacoco que se podia imaginar. Continuar esse caminho, muito em especial no momento que estamos e que vamos, ou podemos com muita probabilidade, vir a atravessar, raia o pior que a ignorância, ou a má fé, podem ditar.
Somos um país a gerar poucos recursos financeiros. Logo, os que existem têm que ser aproveitados da forma mais inteligentemente racional que for possível. Os esforços para gerar recursos financeiros públicos têm que ser equitativos e gerais, com mecanismos de avaliação do esforço de cada um montados de forma sistemática e automática, reduzindo à margem da insignificância o uso do Xico-espertismo na área fiscal e na área empresarial de montagem de empresas ecrã ou de ficção. Ir buscar recursos onde ainda é possível, de forma justa e socialmente aceites sem, ou com pouca, resistência (e ainda os há), desde que isso seja criado para os reduzir nas áreas onde os que os suportam já estão dobrados pelos calcanhares.
Não fazer pela divisão da comunidade, criando esgotamento das poucas forças, com lutas estéreis de uns, que pretensamente andaram e andam a receber mais do que deviam – mas nada fazendo para que a “empresa” pública, sob sua gestão e responsabilidade, racionalize a sua actividade, contra outros que, mais tarde ou mais cedo, também vão ser contagiados do mesmo mal.

6 – Embora o possa parecer com o que deixo escrito, não sou um nacionalista, ideologicamente falando, nem estou agarrado, de forma irreversível, ao conceito de Pátria, como limite territorial para os povos se auto-organizarem. Mas acredito que, em momentos de tanta incerteza no futuro, onde se podem ler e ver caminhos para onde nos atiram aqueles a quem nos juntamos, há que regressar ao ponto de união inicial, re-reforçá-lo e criar forças para, depois, vermos o que fazer.

7 - Desculpem tanto arrazoado mas, às vezes, dá-me para isto, embora vos tenha poupado bastante até agora.
A quem chegar a leitura a esta linha sem ter saltado linhas, o meu obrigado e os meus parabéns por tanta paciência.
Prometo não voltar com mais textos de cariz político, pelo menos, nos próximos tempos.

Friday, 25 November 2011

Crise Económica, Austeridade, o Bem e o Mal

No meio desta onda de crise, ou pseudo-crise, ou anti-crise, económica, às vezes, parece que entro naqueles filmes de ficção, onde o Bem e o Mal, encarnados por seres irreais - de carne e osso, lutam sem fim, com instrumentos e técnicas tão atraentes aos nossos sentidos, que até nós voamos com eles.
Tudo isto, porque, neste teatro de austeridade, em que, cada vez mais, cresce o número de artistas, e cada vez menos outros se sentem de fora, a Bélgica (também) vai entrar em Greve Geral na próxima sexta feira - 2 de Dezembro - e porque começa-se a ver, por toda a Europa, uma onda de greves e/ou manifestações contra. (ponto).
Parece que temos o Bem de um lado, a sofrer ataques fortes do Mal, do outro lado. Ou será ao contrário, o Mal a sofrer fortes ataques do Bem?
Regressado ao filme de ficção, alguém me esclarece onde está o Mal e onde está o Bem?
Quem nos empresta dinheiro para sairmos da crise, com contrapartidas a preço impagável (no sentido literal da palavra), para já não falar do capital liquído emprestado, para o qual pouco sangue nacional restará para o pagar, é do Bem, ou é do Mal?
E a quem leva ondas de descontentes a meter-se em Greves e Manifestações, provocando um… - pelo menos aparente - descer de produtividade, da produção, de aumento da revolta, do espalhar da destruição (sim, porque os ânimos começam a pedir sangue quente), de que lado é que os vamos colocar?
E se isto tudo descambar para estalidos saídos de tubos metálicos, como é que vai ser?
De que lado vamos ficar a apontar, se ainda por cá andarmos?
Dos que nos vieram emprestar a preços usurários, mesmo sabendo das dificuldades (verdadeiras incapacidades) de retribuir o acordado?
Dos que, "coitados", inteligentemente montaram(se em) esquemas de compadrio, de corrupção, semearam obras de que não necessitaríamos prioritariamente, ou cavalgaram instituições financeiras, multiplicando o dinheiro dos incautos à conta de especulações e alavancagens dolosas, até à auto-falência, mas que agora se apresentam, ainda, em condições de garantir afilhados e cumplicidades, e até de probabilidades de distribuição de algum vil metal imaterializado em contas em off-shores, por isso angariando simpatias interesseiras?
Ou dos que, lutando contra os do outro lado, montam circos de descontentamento, ou os exacerbam ao máximo, descurando os efeitos sociais, económicos e financeiros dos mesmos?
Onde é que está o Bem e onde é que está o Mal?
Ou será que o Bem e o Mal, neste mundo de valores diluídos, sequer existem?

Thursday, 3 November 2011

E nós a vermos a União Europeia grega e mais titubeante que nunca!

Ta panta rei”.
Fala-se muito do fim da União Europeia mas, de direito e de facto (talvez devesse ter invertido os termos), tal coisa não existe.
O que temos, o que apenas temos, são comunidades de interesses temáticos, cheios de reservas em formas de anexos, mas também no corpo dos textos, com velocidades diversas e sentidos distintos, quando não muitas vezes opostos, em que uns estão dentro e outros fora, e nem sempre são os de dentro que ditam as regras.
Esta União não existe, não quiseram que existisse, quando foram impondo aos povos aquilo que a eles, e só a eles, competia decidir. Em vez de trabalharem para a inclusão da maioria, esforçaram-se pela exclusão, pelo vergar aos todos poderosos.
Agora, que se cuidem!
Ta panta rei”.

Friday, 21 October 2011

Voltei e encontro tudo pior

Ausentei-me do país, por uns quinze dias, e, quando volto, encontro-o pior do que nunca, mas com a sensação que isto apenas está a começar a descambar - para não ser mais drástico.
Eis que me veio parar, por e-mail, o desabafo de um amigo, com este vídeo que acho um primor para sabermos do que falamos quando nos referimos ao estado do país, não apenas o de agora, mas desde que se elegem aqueles que nos deviam representar como comunidade, internamente, governando para todos, e externamente, defendendo os interesses do país, mas acima de tudo, esperamos nós, que se respeitassem a eles próprios, enquanto eleitos.
O que têm feito, ao longo de 30 anos, está bem caricaturado no vídeo: prometem, numa ignorância que os não abona; mudam de rumo, na falta de carácter de que são portadores desde nascituros; roubam a uns, com argumentos da necessidade de todos, mas sem meterem a mão aos seus bolsos e aos dos seus; mantêm-se no poder, mesmo quando confrontados com a verificação de personalidade de lesmas ao calor.

Tuesday, 2 August 2011

Super Chefe de Gabinete e coisa e tal


É só mais um caso em tão pouco tempo de Governo.
E como era grande a expectativa de todos nós, mesmo os que não se reconhecem nas cores laranja e/ou azul, "torcendo" e cruzando os dedos, e muito, para que se não confirmasse que todos os males que andavam à volta da política se viessem a verificar novamente, remetendo-nos a todos para a máxima de que, em Portugal, a democracia revela que o carácter das gentes da política é tão gelatinoso e tão entranhado nas células de todos os corpos, que só um regime não democrático poderá restaurar - à força e à paulada - os valores que são necessários e exigíveis e exigidos a quem governa um país, dito pobre, como o nosso.
Parece que a maior pobreza vem sempre do mesmo lado, e não é propriamente, nem dos mais pobres, nem sequer daqueles que se diz pertencerem à classe média.
Claro que podería estar a pensar (e muita gente já pensou e já o disse, por exemplo AQUI ) em outras razões para se contratar alguém com uma remuneração mensal acima, muiiito acima, do que é normal para o cargo, mas nem vou falar delas. Fico-me pela justificação do ministro Álvaro Santos Pereira: a pessoa em causa, coitadinha, está a perder 50 mil para estar a desempenhar as funções.
Oh senhor ministro, então e se estivesse a perder 100 mil, ou 200 mil, quanto é que lhe ia arbirtrar para vencimento mensal?
Então, mas V.Exª acha-se assim tão inteligente e ao resto de todos nós, incluindo aos deputados a quem deu essa justificação (menos os da cor, claro), tão burros? Já é o segundo ministro deste governo a demonstrar tal complexo de superioridade. Já são demais e em tão pouco tempo!
Afinal, quem aceita os lugares de serviço público tão nobre, como o de governar um país (neste caso refiro-me aos chefes de gabinete, mas podem-se incluir todos os que fazem parte das equipas ministeriais), fá-lo em função de uma contabilidade de Perdas e Ganhos pessoais? Imediatas? Sim, porque das mediatas, pelo andar da carruagem, também já podemos imaginar o que vai acontecer assim que começarem a sair dos cargos.
IRRRRAAAAA!
Volta José Sócrates que, não tarda, tens a maioria absoluta contigo!
Estás perdoado!
Afinal, todos os males estão nos genes das gentes lusas e não há volta a dar a isto.

Tuesday, 5 July 2011

A crise anda por aí. Italy - Venice

Assim que se sentem apertos nos bolsos e cintos, aparecem, de imediato, as máximas ao chamamento das velhas medidas internacionais da economia, sob a forma de grito:

"fechem as fronteiras, consumam só o que é nacional!"

E se é verdade que por cá andam sons desses no ar, imaginem onde fui encontrar réplicas?

Isso mesmo, onde já se estará a sentir a terra a faltar por debaixo dos pés. Neste caso em concreto, em Veneza.

Em conclusão, só é bom fechar as fronteiras quando estamos anémicos, ou em vias disso.

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Friday, 10 June 2011

O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas

Estátua ao Adamastor, em Lisboa - - - - -

Hoje houve um misto entre festa no ar e olhares espelhando excesso de peso nas almas da maioria dos portugueses.

O Mostrengo reapareceu e ameaça.

Houve discursos carregados de críticas ao passado, telescópios apontados ao futuro, pedidos de Passos bem dados no presente.

Excelente o discurso de António Barreto. Tirem-se as consequências. Todas.

Hoje também é dia de festa da Nação que teima durar e durar e durar, pesem os seus estreitos limites geográficos. Conseguiu sair deste pequeno jardim mal tratado e deixar uma Pátria espalhada pelos cinco ventos, que se ouve e faz entender, por onde quer que se ande.

E é tempo de lembrar aquele que bem alto soube cantar os feitos heróicos deste nobre povo lusitano, porque o dia também é dele.

Porém já cinco sóis eram passados
Que dali nos partíramos, cortando
Os mares nunca doutrem navegados,
Prosperamente os ventos assoprando,
Quando uma noite, estando descuidados
Na cortadora proa vigiando,
Uma nuvem, que os ares escurece,
Sobre nossas cabeças aparece.

Tão grande era de membros, que bem posso
Certificar-te que este era o segundo
De Rodes estranhíssimo Colosso,
Que um dos sete milagres foi do mundo.
Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso,
Que pareceu sair do mar profundo.
Arrepiam-se as carnes e o cabelo,
A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo!

E disse: "Ó gente ousada, mais que quantas
No mundo cometeram grandes cousas,
Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,
E por trabalhos vãos nunca repousas,
Pois os vedados términos quebrantas
E navegar nos longos mares ousas,
Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,
Nunca arados d’estranho ou próprio lenho:

Pois vens ver os segredos escondidos
Da natureza e do úmido elemento,
A nenhum grande humano concedidos
De nobre ou de imortal merecimento,
Ouve os danos de mi que apercebidos
Estão a teu sobejo atrevimento,
Por todo largo mar e pola terra
Que inda hás de sojugar com dura guerra.

Mais ia por diante o monstro horrendo
Dizendo nossos fados, quando, alçado,
Lhe disse eu: - Que és tu? Que esse estupendo
Corpo certo me tem maravilhado!
A boca e os olhos negros retorcendo
E dando um espantoso e grande brado,
Me respondeu, com voz pesada e amara,
Como quem da pergunta lhe pesara:

Eu sou aquele oculto e grande Cabo
A quem chamais vós outros Tormentório,
Que nunca a Ptolomeu, Pompônio, Estrabo,
Plínio e quantos passaram fui notório.
Aqui toda a africana costa acabo
Neste meu nunca visto promontório,
Que pera o Pólo Antártico se estende,
A quem vossa ousadia tanto ofende.

Fui dos filhos aspérrimos da Terra,
Qual Encélado, Egeu e Centimano;
Chamei-me Adamastor e fui na guerra
Contra o que vibra os raios de Vulcano;
Não que pusesse serra sobre serra,
Mas conquistando as ondas do Oceano,
Fui capitão do mar, por onde andava
A armada de Neptuno, que eu buscava.

Eram já neste tempo meus Irmãos
Vencidos e em miséria extrema postos,
E, por mais segurar-se Deuses vãos,
Alguns a vários montes sotopostos.
E, como contra o Céu não valem mãos,
Eu, que chorando andava meus desgostos,
Comecei a sentir do fado imigo,
Por meus atrevimentos, o castigo:

Converte-se-me a carne em terra dura;
Em penedos os ossos se fizeram;
Estes membros que vês e esta figura
Por estas longas águas se estenderam;
Enfim, minha grandíssima estatura
Neste remoto Cabo converteram
Os Deuses; e, por mais dobradas mágoas,
Me anda Tétis cercando destas águas.

Assi contava; e, cum medonho choro,
Súbito d’ante os olhos se apartou.
Desfez-se a nuvem negra e cum sonoro
Bramido muito longe o mar soou.
Eu, levantando as mãos ao santo coro
Dos Anjos, que tão longe nos guiou,
A Deus pedi que removesse os duros
Casos que Adamastor contou futuros.

CAMÕES, “Os Lusíadas”, canto V

(extrato das estrofes 37 a 60 – resumo do episódio do Gigante Adamastor)


E houve, ainda, arremedos de manifestações políticas.







Tuesday, 7 June 2011

E eis que é segunda-feira, ou o "the day after".


Isto é, a segunda-feira foi ontem mas, "the day after", vai continuar.

E parece que não começa da melhor forma, apesar das boas intenções.

Então não é que eu ouvi tanta guerra a ser feita ao peso do Estado, à gordura da administração pública e à pulverização das funções do Estado por entidades difíceis de encontrar e saber o que fazem e, ainda sem terem as cadeiras à mão do rabinho, já anunciam a criação de uma alta "autoridade orçamental independente" (Conselho de Finanças Públicas)?

Com assentos distribuídos ao Tribunal de Contas, ao Banco de Portugal e entidades independentes, incluindo estrangeiras??!!

Eh láááá!!!

Alguém que vá em "Passos" de corrida acelerada acender o farol, a ver se não perdem o rumo antes de estarem ao leme da nau.
DSC07093
Farol de Cacilhas, Almada

Wednesday, 1 June 2011

Função pública


Passos Coelho defendeu ontem a indexação dos salários da função pública à produtividade.”, lê-se no jornal Público (01.06.2011)

Lembro-me de, desde a segunda metade da década de 80, se ter iniciado - e sempre em crescendo - a introdução das ideias de “exploração” da actividade que é exercida pela Administração Pública (AP) como se de uma actividade privada se tratasse, como se fosse industrial ou, pior ainda, cada Direcção-Geral fosse uma empresa de comércio.

Começou, entre outras coisas (como a de que a AP tinha que seguir as regras de concorrência, por exemplo), com o seu símbolo máximo: o cidadão - ou outro utilizador dos serviços públicos - deveria ser tratado como “CLIENTE”.

Ora, cliente é sinónimo de (dizem os dicionários) “pessoa que requer serviços mediante pagamento, que compra algo; comprador; freguês”.

Ao ponto onde o avanço de tal ideia nos trouxe, parece-me, ninguém tem dúvidas. Mas há sempre alguns que querem mais e não hesitam em atirar tudo ao precipício, no afã de, dos cacos, apanharem uma jóia reluzente.

Sabemos, não vale a pena metermos a cabeça na areia, que a AP sofreu uma desmesurada inflação nos recursos humanos, no período a seguir à revolução de Abril, como forma de secar potenciais conflitos sociais, tal o nível a que chegou a destruição do tecido económico e, com ele, a possível horda de desempregados, não fosse a abertura de todas as portas, mesmo as que não existiam, a quem quer que se apresentasse à função pública.

Depois, temos assistido à desenfreada distribuição de lugares públicos, dos mais humildes aos mais elevados, como forma de comprar votos e garanti-los no futuro, quiçá até, dominar pontos chave do poder administrativo do Estado, ou “dividindo” o Estado em tantas partes quantas as que conseguem a imaginação e as necessidades partidárias, quer dentro da Adinistração Central, quer fora dela, criando e fazendo nascer, com mais facilidade que cogumelos, instituições e empresas públicas que prosseguem funções em cumulação com as funções públicas tradicionais para as quais existem Direcções-Gerais ou equivalentes, ou mesmo em contradição com elas, ou fingem que têm algo útil a prosseguir a par delas, e chegámos, sem dúvida, a um corpo da AP insustentável.

Nunca se viu, ou só se viu de forma tíbia, um partido político “meter o dedo na ferida” e tomar as medidas que, em minha opinião, são realmente necessárias.

Tem sido este o caminho escolhido pelos principais partidos políticos que, nos últimos tempos, ou não têm quadros capazes de analisarem as reais causas do estado a que o Estado-Administração chegou ou/e de tomarem as consequentes e necessárias medidas que ele necessita.

A manutenção do princípio de que o Estado-Administração tem de prosseguir a sua actividade pública como se privada fosse vai-nos atirar, definitivamente, lá para o fundo, onde nem cacos sobrarão.

Não há outra forma de ver o exercício da função pública (entenda-se, as funções públicas) que não seja como o exercício de uma missão, onde o objectivo primordial é servir, com desprendimento (abnegação, generosidade e independência), os que são a sua razão de existir, quer como fim, quer como meio de financiamento da mesma. De forma racional, q.b., mas não mais que isso. Sem querer dizer que quem se dedica a essa missão tenha que ser “franciscano”.

A este propósito, sem que esteja totalmente de acordo com o que a sua ironia pretende transmitir, vem bem a calhar lembrar este texto de José Saramago:

«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E, finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional.
Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.»

In Cadernos de Lanzarote - Diário III

Sunday, 1 May 2011

Deitar contas à vida


Se a minha memória não me atraiçoa, há algumas décadas que não se via um 25 de Abril e um 1º de Maio como os deste ano.

E algo me diz que este ano foi só, para ambos, o início do trajecto até ficarem enterrados a 2 metros de profundidade, num qualquer cemitério das revoluções iniciadas nos anos 60 do século passado e que, neste cantinho à beira-mar plantado, culminaram com a efectuada a 25 de Abril de 1974.

As comemorações do 25 de Abril, é o que se tem visto desde há meia dúzia de anos. Ano a ano, mais se arrastam para terem uma cerimónia de cariz nacional. Longe vai o sonho de alguns em o sustituirem ao 10 de Junho.

O 1º de Maio, nem se arrastou. Foi um ar que lhe deu de uma só vez.

Hoje, num momento em que o país se diz em austeridade, as grandes e médias superfícies comerciais apresentavam-se como qualquer outro domingo, quiçá com mais movimento de pessoas atarefadas em gastar os euros das austeridades pessoais em produtos provenientes da Europa que se pergunta se nos deve apoiar com mais euros para lhes comprarmos mais produtos ou, pior ainda, “made in China”, desenvolvidos pelo capital e know how de algumas grandes empresas europeias (mas não só) que para isso tiveram que se decidir por desempregar europeus a troco de “algumas tigelas de arroz” no outro lado do globo.

Lojas cheias, muitas promoções a apelar às oportunidades de uma compra pelo Dia da Mãe, pelo dia disto, ou apenas por aquilo, porque todos os motivos são bons para vender, “trabalhadores” a fazer aquilo para que são pagos sem um pequeno remorso na alma ou um único neurónio a lembrar o longínquo dia 1 de Maio de 1886 de Chicago.

Este país necessita, definitivamente, de deitar contas à vida.

Saturday, 30 April 2011

Outras ingenuidades mais sérias, ou talvez não

"Constituição da República Portuguesa
Artigo 162.º
Competência de fiscalização
Compete à Assembleia da República, no exercício de funções de fiscalização:
a) Vigiar pelo cumprimento da Constituição e das leis e apreciar os actos do Governo e da Administração ;
b) ... ;
c) ... ;
d) Tomar as contas do Estado e das demais entidades públicas que a lei determinar, as quais serão apresentadas até 31 de Dezembro do ano subsequente, com o parecer do Tribunal de Contas e os demais elementos necessários à sua apreciação;
e) Apreciar os relatórios de execução dos planos nacionais.
"


Alguém me sabe explicar porque é que os Partidos Políticos com assento na Assembleia da República desde há décadas, os Deputados com cadeiras de couro já gasto pelas milhares de vezes que lá botaram os seus assentos para garantirem reformas douradas por antecipação e demais mordomias, e as figuras que a ela e eles estiveram ligados, aguardaram pela chegada dos ditos Senhores da Tróika, por definição senhores que vieram de fora, para fazer o "banzé" que andam a fazer, quer nos meios de comunicação, quer com cartas e recados, especialmente os dirigidos aos "tais de fora", sobre o estado das contas do Estado, como se tal realidade fosse uma coisa que aconteceu em uma ou duas semanas anteriores ao banzé??????

Olho para o espectáculo e fazem-me lembrar prostitutas com carteiras profissionais passadas há anos e já gastas por tanto uso, a gritarem a todos os ventos que são virgens puras e só agora estão a sentir, por simpatia para com aqueles que realmente se sentem "sem protecção rectal", a violação criminosa que é um Estado incumprir (com a maioria da parte que forma a contraparte) o contrato social que há muito firmou com os cidadãos.

Haja vergonha!!

Friday, 1 April 2011

Ergue-te de novo, oh Portugal milenar!


Esta República (leia-se, regime iniciado em Abril de 1974) já deu o que tinha a dar.

A culpa foi dos capitães de Abril que se lançaram numa aventura a que chamaram revolução, sem prepararem "A Revolução", não medindo as consequências aos diversos níveis que necessariamente deveria ter sido fácil perceber iria verificar-se. Deixaram-nos de positivo a Democracia, mas a que preço, Deus meu!

A culpa foi dos presidentes da república, de todos os que tivemos até ao actual, que exerceram a primeira magistratura a olhar para a segunda, e nesta a tentarem ser primeiros ministros.

A culpa foi dos primeiros ministros e dos ministros e restantes equipas dos seus governos, de todos os que tivemos até aos actuais, porque parece terem aceite a tarefa, que devia ser a de governar a coisa pública, para fazerem política baixa e de clientelas garantidas, em vez das necessárias, por mais duras que fossem, propiciando a que comunidade portuguesa levantasse de um voo rasteiro que o anterior regime lhes ensinara a voar; não a olhar para megalomanias irreais para um país como nosso, ainda por cima donde ficaram fumos (com poucas excepções) de, a coberto de medidas ditas a bem de toda a comunidade, só a alguns parece terem engordado.

A culpa foi dos parlamentares de todas as legislaturas, de todos os que tivemos até aos actuais, enquanto detentores do poder constitucional que lhes garantia poderem tomar as melhores medidas legislativas orientadoras para toda a comunidade, debatendo as situações com verdade e honestidade, sem recurso, sempre em crescendo, a chicana no discurso e nos objectivos.

A culpa tem sido dos partidos políticos que têm aparecido no nosso mosaico parlamentar porque, com o tempo, se tornaram todos iguais nos objectivos por que lutam (não disse ideais, porque nenhum parece já saber o que isso é), na forma de fazer politica, no discurso repetitivo e gasto de más provas dadas, mas sempre teimosos a dar mais do mesmo, violando leis de que foram a fábrica, o armazem e o estabelecimento comercial de venda ao consumo.

A culpa tem sido das taínhas que vivem nos e dos partidos políticos e, muito especialmente, de quem os deixa navegar à babugem.

A culpa tem sido das empresas corruptoras e dos corrompidos, que engordam ilícita e egoisticamente, quando as tarefas são, ou deveriam ser, de âmbito e interesse nacional. Dos que engoliram e ajudaram a engolir os milhões de euros que aportaram à costa nacional, sem deixar rasto de desenvolvimento de costumes, de educação, de investigação científica e de economia.

A culpa tem sido de quem intervém nos órgãos de comunicação social, porque saídos dos mesmo forno que está a acabar, pensaram que informar é dar palpites sem estudar, é lançar suspeitas sobre cidadãos sem investigar, é ficarem cegos pelos focos das cameras.

A culpa tem sido dos magistrados, dos judiciais e dos públicos, que também se deixaram enredar no turbilhão do tudo vale para ter um segundo de atenção na TV, na rádio e na imprensa.

A culpa tem sido de todos nós, novamente eles incluídos, porque temos preferido dar passos a descer, que são mais fáceis, mesmo que o fim da descida esteja ali mesmo à vista e a seguir se veja o precipício sem escapatória possível, a uma caminhada serra acima, mais longa, mais difícil, mas com futuro melhor e garantido; do melhor agora, mesmo que se esgote num segundo, do que trabalhar para um depois mais longo, conduta que foi assente na adquirida sensação de que se assim não for, "eles comem tudo e não deixam nada".

É tempo de mudança, é tempo de mudar de rumo, e muito rapidamente. Os 800 anos que temos da mais velha nação europeia estável nas fronteiras e na cultura, não serão garantia de que continuaremos a sê-lo nos próximos 800 minutos. O potente e pesado cilindro da globalização e do poder que o colocou nesta nova marcha, de há meia dúzia de anos, não nos vai perdoar e ficaremos todos esmagados.

É tempo de se pensar em eleger uma Assembleia Constituinte ex-novo, à parte da AR que deverá continuar em funções, pescada de gente que saiba e consiga pensar Portugal para lá de lutas partidárias, com o objectivo de pensar Portugal a longo prazo e um novo rumo a curto-médio prazo, para fundar uma nova democracia, assente em linhas claras, órgãos eficientes, administração pública magra mas funcionalmente definida, com as actividades privadas sem pecados públicos e vice-versa, com pessoas e cargos responsáveis, responsabilizáveis e responsabilizados, com educação massificada mas não embrutalhada, com saúde pública tendencialmente gratuita, porque a saúde é rigorosamente de interesse público, com magistrados que exerçam a justiça em vez de se lançarem em lutas de operariado e passadas partidárias, com autoridades policiais que o sejam e possam ser, sem abusar, uma nova democracia em que todos e cada um dos que nela estejam tenham imbuídos os sentimentos de partilha, trabalho, liberdade, responsabilidade sempre presentes, na certeza de que o que é bom para a comunidade portuguesa, vai e terá que ser bom para cada um dos que a ela pertence. Uma nova democracia da qual renasçam partidos políticos constituídos por gente que saiba por que eles existem e porque é que eles podem deixar de existir.