Monday 12 December 2011

No tempo da minha infância

Recebi a foto e o texto por mensagem electrónica.
Sei que a esperança de vida, actualmente, é maior que a desses "bons tempos" cantados no texto.
Mas há algo de verdade no mesmo. Passou-se de um extremo ao outro, sem seleccionar ou filtrar o que devia e podia ser alterado, e o que deveria manter-se, tanto quanto o possível, como era.
Talvez tudo não passe de utopia, porque o mundo, de facto, é feito de mudança.

NO TEMPO DA MINHA INFÂNCIA,

por
 ISMAEL GAIÃO

No tempo da minha infância
Nossa vida era normal,
Nunca me foi proibido
Comer muito açúcar ou sal.
Hoje tudo é diferente,
Sempre alguém ensina a gente
Que comer tudo faz mal.

Bebi leite ao natural,
Da minha vaca Quitéria,
E nunca fiquei de cama
Com uma doença séria.
As crianças de hoje em dia
Não bebem como eu bebia
Pra não pegar bactéria.

A barriga da miséria
Tirei, com tranquilidade,
Do pão com manteiga e queijo,
Hoje, só resta a saudade.
A vida ficou sem graça.
Não se pode comer massa
Por causa da obesidade.

Eu comi ovo à vontade
Sem ter contra indicação
Pois o tal colesterol
Pra mim nunca foi vilão.
Hoje a vida é uma loucura
Dizem que qualquer gordura
Nos mata do coração.

Com a modernização
Quase tudo é proibido,
Pois sempre tem uma Lei
Que nos deixa reprimido.
Fazendo tudo que eu fiz,
Hoje me sinto feliz
Só por ter sobrevivido.

Eu nunca fui impedido
De poder me divertir.
E nas casas dos amigos
Eu entrava sem pedir.
Não se temia a galera
E naquele tempo era
Proibido proibir.

Vi o meu avô dirigir
Numa total confiança
Sem apoio, sem air-bag,
Sem cinto de segurança,
E eu, no banco de trás,
Solto, igualzinho aos demais,
Fazia a maior festança.

No meu tempo de criança,
Por ter sido reprovado,
Ninguém ia ao psicólogo,
Nem se ficava frustrado.
Quando isso acontecia,
A gente só repetia
Até que fosse aprovado.

Não tinha superdotado,
Nem a tal dislexia,
E a hiperatividade
É coisa que não se via.
Falta de concentração
Se curava com carão
E disso ninguém morria.

Nesse tempo se bebia
Água vinda da torneira,
De uma fonte natural
Ou até de uma mangueira,
E essa água engarrafada,
Que diz-se esterilizada,
Nunca entrou na nossa feira.

Para a gente era besteira
Ter perna ou braço engessado,
Ter alguns dentes partidos,
Ou um joelho arranhado.
Vovó guardava veneno
Em um armário pequeno
Sem chave e sem cadeado.

Nunca fui envenenado
Com as tintas dos brinquedos.
Remédios e detergentes
Se guardavam, sem segredos.
E descalço, na areia,
Eu joguei bola de meia
Rasgando as pontas dos dedos.

Aboli todos os medos
Apostando umas carreiras,
Em carros de rolimã,
Sem usar cotoveleiras.
Pra correr de bicicleta
Nunca usei, feito um atleta,
Capacete e joelheiras.

Entre outras brincadeiras,
Brinquei de Carrinho de Mão,
Estátua, Jogo da Velha,
Bola de Gude e Pião,
De mocinhos e Cawboys
E até de super-heróis
Que vi na televisão.

Eu cantei Cai, Cai Balão,
Palma é palma, Pé é pé,
Gata Pintada, Esta Rua,
Pai Francisco e De Marré.
Também cantei Tororó,
Brinquei de Escravos de Jó
E o Sapo não lava o pé.

Com anzol e jereré
Muitas vezes fui pescar,
E só saía do rio
Pra ir pra casa jantar.
Peixe nenhum eu pagava
Mas os banhos que eu tomava
Dão prazer em recordar.

Tomava banho de mar
Na estação do verão,
Quando papai nos levava
Em cima de um caminhão.
Não voltava bronzeado,
Mas com o corpo queimado,
Parecendo um camarão.

Sem ter tanta evolução
O Playstation não havia.
E nenhum jogo de vídeo
Naquele tempo existia.
Não tinha vídeo cassete,
Muito menos internet,
Como se tem hoje em dia.

O meu cachorro comia
O resto do nosso almoço.
Não existia ração,
Nem brinquedo feito osso.
E, para as pulgas matar,
Nunca vi ninguém botar
Um colar no seu pescoço.

E ele achava um colosso
Tomar banho de mangueira,
Ou numa água bem fria,
Debaixo duma torneira.
E a gente fazia farra
Usando sabão em barra
Pra tirar sua sujeira.

Fui feliz a vida inteira
Sem usar um celular.
De manhã ia pra aula
Mas voltava pra almoçar.
Vovó não se preocupava
Pois sabia que eu chegava
Sem precisar avisar.

Comecei a trabalhar
Com onze anos de idade,
Pois o meu avô me mostrava
Que, pra ter dignidade,
O trabalho era importante,
Pra não me ver adiante
Ir pra marginalidade.

Mas, hoje, a sociedade
Essa visão não alcança
E proíbe qualquer pai
Dar trabalho a uma criança.
Prefere ver nossos filhos
Vivendo fora dos trilhos
Num mundo sem esperança.

A vida era bem mais mansa,
Com um pouco de insensatez.
Eu me lembro com detalhes
De tudo que a gente fez.
Por isso, tenho saudade
E hoje sinto vontade
De ser criança outra vez ...

1 comment:

HMB said...

Gosto muito,
Nada nos Impede viver como antes.
O telemóvel?
Já deixei há uns meses. Somente ligo quando preciso, mas não vale a pena chamar porque o resto do tempo está desligado.
Comer?
Como quando tenho vontade.
Falar?
Digo aquilo que me apetece.
Há uma coisa que me faz falta. Poder dar uns murros a quem eu quiser,sem ter que pagar o concerto dos dentes. Isto faz falta e poupava muitas despesas de justiça ao pais.