Wednesday, 20 July 2011

Olhares perdidos da Arrábida

Por estes dias, e já têm sido mais do que deviam, sem se saber quando acaba esta contagem, Éolo tem deixado Bóreas e Zéfiro à solta e à luta, que nem demónios, em incerta direcção mas persistente força e intenções de estragar o Verão aos humanos destas bandas.
Louvo a resistência de muitos veraneantes que se aventuram até às praias e por lá ficam.
Eu também ia sendo apanhado pelo constante picar das areias, mas resolvi privilegiar uns olhares pela Serra da Arrábida, que aqui vos deixo.

Sunday, 17 July 2011

Voo rasante por Itália: LAGO DI GARDA


Em tempo de férias, nada melhor do que passear.
Vamos continuar o voo pela Itália, hoje pelo Lago di Garda, o maior lago da Itália. A viagem inicia-se em Sirmioni, na província de Bréscia, e termina em Peschiera del Garda, com passagem pelos portos de Garda, Bardolino, Lazise e Cizano, todas na província de Verona, com vista geral dessas cidades a partir do lago, que atravessámos sem tocar nas margens da província de Trento, a outra província que também é banhada pelo lago.
As vistas são simplesmente fascinantes. No entanto, as fotos não conseguem passar essa força hipnótica, quer pela (falta de) técnica do fotógrafo de serviço, quer porque, apesar do calor intenso que se fazia sentir, o sol só excepcionalmente se ter apresentado, ausência que aumentou a presença de neblina no ar.
O álbum poderá demorar mais tempo do que o habitual para carregar, pois tem muitas fotos (73). Como é minha norma, apresento as fotos sem demasiada preocupação com aspectos estéticos e de arte fotográfica. O meu objectivo aqui é o de mostrar "olhares citadinos".
Boa viagem e até à próxima.

Friday, 15 July 2011

Voo rasante por Itália: MILÃO

Fiz a aterragem de chegada em Milão e, dez dias depois, estava a levantar voo de regresso em Roma.
Convido-vos a virem comigo piscar os olhos a alguns pontos onde pousei o meu olhar.
Comecemos por Milão e, assim que puder, virei com voos rasantes por outras paragens.
Não se esqueçam de, ao iniciar, seleccionar a função "show info", na parte superior direita.
E tenham um bom fim de semana e boas férias (aproveitem-nas, que podemos entrar em crise e aparecer uma tesoura a cortar 50% das vossas férias. Tudo a Bem da Nação, claro está).

Tuesday, 12 July 2011

Dembos - a floresta do medo


DEMBOS para blogue
Deu à estampa, em Abril de 2007, este livro, primeira obra de um amigo de infância.

"Apresentado como romance, para mim é mais um conjunto de contos sobre duras experiências vividas, ainda que, por haver alguns elos de ligação entre eles, possa cair naqueloutra forma.
Discurso simples, mas bem escrito, vivo e sempre a prender o passo seguinte, foi leitura de alguns dias, propositadamente lenta, refreada, para poder sorver o prazer do filme que a narrativa me trouxe à mente, embora nunca tivesse ido até aos locais (reais) onde se passam as principais aventuras. Mas vivi algumas bem parecidas. E gostava de conhecer aquelas paragens. A forma como elas são pintadas, ofereceram-me essa viagem. A possível, para já.
Sente-se que a obra é despretensiosa quanto a querer vir a ser um “best-seller”, mas não esconde o objectivo de deixar fotos sob a forma de palavras (ainda que genéricas e, por isso, com alguns riscos – esta é a minha opinião):
- do que sentiu e sentia a juventude de então, naquelas duras condições, e de como em Angola, naquela época, se pensava sobre a guerrilha pela independência, na perspectiva de um dos lados, ou da defesa do território sob o poder político de Portugal, na do outro lado, e como ela se desenrolava;
- as barreiras mentais e culturais das gentes que apareciam idas da Metrópole (assim chamado o actual “torrão” lusitano) e as daquelas que lá tinham nascido, ou crescido desde muito cedo ou vivido uns quantos anos, pelo menos enquanto aqueles não bebiam e ficavam embebidos de uma maneira de ver a vida e o mundo bem diferente, bem mais avançado que era, sem dúvida, a dos angolanos;
- das conversas sobre os desejos e esperanças políticas que já eram sentidos pela massa humana residente, especialmente a mais jovem, que já sentiam que só passos autonómicos, quiçá de independência, poderiam levar a uma mudança do que de errado se fazia e estava à vista de quem queria ver, pese a perspectiva política ser ainda embrionária... mas livre;
- enfim, um testemunho do final dos anos de sessenta e início dos setenta, que antecederam a Revolução de Abril, tendo como palco principal aquela que foi uma das matas mais traiçoeiras de então.
Especialmente para quem por lá andou, de camuflado vestido e arma aperrada, ou não, ou para aqueles que sentem alguma curiosidade sobre aqueles espaços geográficos e temporais, aconselho a sua leitura (não tenho qualquer comissão, apenas comprei o livro e gostei)."

Isto escrevia eu no meu blogue de então, em 2007, num conjunto de posts que foram perdidos, por isso aqui o republico.

Eis que veio à luz do dia mais uma obra sua, o qual estou a acabar de ler e, por isso, ficará para um novo post.

Monday, 11 July 2011

Mascarando a cidade. Italy - Verona



A caça às moedas também dá para usar e pôr máscaras.

Aqui, bem junto ao palácio dos Capuleto, onde pretensamente ardeu um amor sem fim entre Romeu e Julieta.

Estamos, portanto, em Verona e não em Veneza.

Nem por isso, os trajes e as máscaras venezianas deixam de dar cor à rua.

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Thursday, 7 July 2011

Bike me? Italy - Milan




Bike Mi



O meio de transporte em duas rodas está em cada canto de Milão, especialmente nas áreas históricas.

Entre todos, saltaram-me aos olhos estas pérolas.

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Wednesday, 6 July 2011

Gondolando. Italy - Venice


Pachorrentamente, lá vão percorrendo os canais.
Nos mais largos, sem notórias preocupações com o trânsito. Nos mais estreitos, com pontos de engarrafamento a pedir mestria aos homens do leme, que a têm, pressente-se, desde que nasceram, mas que ainda assim nos causa alguma incerteza no avanço, nem tanto pelo bem que saberia um mergulho a amolecer o tórrido calor que se faz sentir. E é nestes canais que entoam e ecoam - por entre velhos e altos edifícios, mergulhados mais do que seria desejável, e sempre mais a cada ano que passa, numa água que nenhum ser vivo deve querer provar ou sequer entrar - cantos que alguns dos gondoleiros também se ajeitam a remar.
Chegada a viagem ao fim, conclui-se que não foi nada pachorrenta.

Tuesday, 5 July 2011

A crise anda por aí. Italy - Venice

Assim que se sentem apertos nos bolsos e cintos, aparecem, de imediato, as máximas ao chamamento das velhas medidas internacionais da economia, sob a forma de grito:

"fechem as fronteiras, consumam só o que é nacional!"

E se é verdade que por cá andam sons desses no ar, imaginem onde fui encontrar réplicas?

Isso mesmo, onde já se estará a sentir a terra a faltar por debaixo dos pés. Neste caso em concreto, em Veneza.

Em conclusão, só é bom fechar as fronteiras quando estamos anémicos, ou em vias disso.

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Tuesday, 14 June 2011

Vendo os comboios chegar e partir de Lisboa


Lisboa
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Estação de Santa Apolónia.
Junto ao Cais do Jardim do Tabaco, no Tejo.
Lisboa.

Sunday, 12 June 2011

Santos populares


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Junho é o mês grande, em Portugal. Mesmo se comparado ao mês das férias por excelência (Agosto), que tem mais um dia de calendário.

Os santos saltam prá rua e há arraiais em cada porta.

Em Lisboa, de vez em quando, o calendário é excepcionalmente generoso. O dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas dá as mãos ao dia da cidade e de Santo António, deixando o fim de semana a ligá-los.

Alfama, Castelo, Mouraria, Bairro Alto, ...

É nos bairros históricos que a festa ocupa todos os espaços, onde as pessoas se acotovelam, com o cheiro da sardinha assada a voar com o fumo das grelhas até todos os sensores olfativos que se encontrem nas redondezas, não deixando nenhum apetite de fora; são as mesas cheias e a algazarra no ar; são os sons das marchas populares a pedir uns pés de dança nos diminutos espaços dos recintos improvisados que ainda se encontram livres, é o vinho e a cerveja a correr. São os vasos de manjerico enfeitados com cravos de papel a acompanhar as quadras alegóricas ao Santo António, padroeiro da cidade, aos casamentos e ao amor.

E às centenas de quadras já existentes, nasce mais uma:

Pró S. António dar gozo,
Traz-me um arco, um balão
E um beijo bem caloroso,
Qu'eu dou-te o meu coração.
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Friday, 10 June 2011

O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas

Estátua ao Adamastor, em Lisboa - - - - -

Hoje houve um misto entre festa no ar e olhares espelhando excesso de peso nas almas da maioria dos portugueses.

O Mostrengo reapareceu e ameaça.

Houve discursos carregados de críticas ao passado, telescópios apontados ao futuro, pedidos de Passos bem dados no presente.

Excelente o discurso de António Barreto. Tirem-se as consequências. Todas.

Hoje também é dia de festa da Nação que teima durar e durar e durar, pesem os seus estreitos limites geográficos. Conseguiu sair deste pequeno jardim mal tratado e deixar uma Pátria espalhada pelos cinco ventos, que se ouve e faz entender, por onde quer que se ande.

E é tempo de lembrar aquele que bem alto soube cantar os feitos heróicos deste nobre povo lusitano, porque o dia também é dele.

Porém já cinco sóis eram passados
Que dali nos partíramos, cortando
Os mares nunca doutrem navegados,
Prosperamente os ventos assoprando,
Quando uma noite, estando descuidados
Na cortadora proa vigiando,
Uma nuvem, que os ares escurece,
Sobre nossas cabeças aparece.

Tão grande era de membros, que bem posso
Certificar-te que este era o segundo
De Rodes estranhíssimo Colosso,
Que um dos sete milagres foi do mundo.
Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso,
Que pareceu sair do mar profundo.
Arrepiam-se as carnes e o cabelo,
A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo!

E disse: "Ó gente ousada, mais que quantas
No mundo cometeram grandes cousas,
Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,
E por trabalhos vãos nunca repousas,
Pois os vedados términos quebrantas
E navegar nos longos mares ousas,
Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,
Nunca arados d’estranho ou próprio lenho:

Pois vens ver os segredos escondidos
Da natureza e do úmido elemento,
A nenhum grande humano concedidos
De nobre ou de imortal merecimento,
Ouve os danos de mi que apercebidos
Estão a teu sobejo atrevimento,
Por todo largo mar e pola terra
Que inda hás de sojugar com dura guerra.

Mais ia por diante o monstro horrendo
Dizendo nossos fados, quando, alçado,
Lhe disse eu: - Que és tu? Que esse estupendo
Corpo certo me tem maravilhado!
A boca e os olhos negros retorcendo
E dando um espantoso e grande brado,
Me respondeu, com voz pesada e amara,
Como quem da pergunta lhe pesara:

Eu sou aquele oculto e grande Cabo
A quem chamais vós outros Tormentório,
Que nunca a Ptolomeu, Pompônio, Estrabo,
Plínio e quantos passaram fui notório.
Aqui toda a africana costa acabo
Neste meu nunca visto promontório,
Que pera o Pólo Antártico se estende,
A quem vossa ousadia tanto ofende.

Fui dos filhos aspérrimos da Terra,
Qual Encélado, Egeu e Centimano;
Chamei-me Adamastor e fui na guerra
Contra o que vibra os raios de Vulcano;
Não que pusesse serra sobre serra,
Mas conquistando as ondas do Oceano,
Fui capitão do mar, por onde andava
A armada de Neptuno, que eu buscava.

Eram já neste tempo meus Irmãos
Vencidos e em miséria extrema postos,
E, por mais segurar-se Deuses vãos,
Alguns a vários montes sotopostos.
E, como contra o Céu não valem mãos,
Eu, que chorando andava meus desgostos,
Comecei a sentir do fado imigo,
Por meus atrevimentos, o castigo:

Converte-se-me a carne em terra dura;
Em penedos os ossos se fizeram;
Estes membros que vês e esta figura
Por estas longas águas se estenderam;
Enfim, minha grandíssima estatura
Neste remoto Cabo converteram
Os Deuses; e, por mais dobradas mágoas,
Me anda Tétis cercando destas águas.

Assi contava; e, cum medonho choro,
Súbito d’ante os olhos se apartou.
Desfez-se a nuvem negra e cum sonoro
Bramido muito longe o mar soou.
Eu, levantando as mãos ao santo coro
Dos Anjos, que tão longe nos guiou,
A Deus pedi que removesse os duros
Casos que Adamastor contou futuros.

CAMÕES, “Os Lusíadas”, canto V

(extrato das estrofes 37 a 60 – resumo do episódio do Gigante Adamastor)


E houve, ainda, arremedos de manifestações políticas.







Wednesday, 8 June 2011

Outro testamento


Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.

Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.

Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.

Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.

Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.

Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.

Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar.

VITORINO NEMÉSIO
1901 - 1978

Tuesday, 7 June 2011

E eis que é segunda-feira, ou o "the day after".


Isto é, a segunda-feira foi ontem mas, "the day after", vai continuar.

E parece que não começa da melhor forma, apesar das boas intenções.

Então não é que eu ouvi tanta guerra a ser feita ao peso do Estado, à gordura da administração pública e à pulverização das funções do Estado por entidades difíceis de encontrar e saber o que fazem e, ainda sem terem as cadeiras à mão do rabinho, já anunciam a criação de uma alta "autoridade orçamental independente" (Conselho de Finanças Públicas)?

Com assentos distribuídos ao Tribunal de Contas, ao Banco de Portugal e entidades independentes, incluindo estrangeiras??!!

Eh láááá!!!

Alguém que vá em "Passos" de corrida acelerada acender o farol, a ver se não perdem o rumo antes de estarem ao leme da nau.
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Farol de Cacilhas, Almada

Friday, 3 June 2011

Período de reflexão. Volto segunda-feira


Hoje é dia de pegar na prancha e preparar uma boa surfadela até domingo. Mergulhar no que queremos para o país, também o que não queremos, enfrentar os medos, das ondas e dos ventos, assentar bem os pés e deixarmo-nos embalar até ao gozo final. Venha definitivamente uma maioria absoluta, qualquer que seja (o povo é que a ordenará) para se acabarem as desculpas. Não voltará a haver mais portas para a esperança da vida.
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Thursday, 2 June 2011

E o Verão, vem ou não? Perscrutando-o da Costa da Caparica


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Olhando da Praia da Mata, na Costa da Caparica, para o Cabo Espichel.

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Olhando da Praia da Mata para a Serra de Sintra. As praias da Costa da Caparica, em primeiro plano, Estoril/Cascais, ao fundo.

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Olhando da Praia da Mata (Costa da Caparica) para a Serra de Sintra, com a silhueta do Palácio Nacional de Pena - Sintra.

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Surfing. Praia da Mata - Costa da Caparica. Ondas q.b., muito vento, sol e calor.

Wednesday, 1 June 2011

Função pública


Passos Coelho defendeu ontem a indexação dos salários da função pública à produtividade.”, lê-se no jornal Público (01.06.2011)

Lembro-me de, desde a segunda metade da década de 80, se ter iniciado - e sempre em crescendo - a introdução das ideias de “exploração” da actividade que é exercida pela Administração Pública (AP) como se de uma actividade privada se tratasse, como se fosse industrial ou, pior ainda, cada Direcção-Geral fosse uma empresa de comércio.

Começou, entre outras coisas (como a de que a AP tinha que seguir as regras de concorrência, por exemplo), com o seu símbolo máximo: o cidadão - ou outro utilizador dos serviços públicos - deveria ser tratado como “CLIENTE”.

Ora, cliente é sinónimo de (dizem os dicionários) “pessoa que requer serviços mediante pagamento, que compra algo; comprador; freguês”.

Ao ponto onde o avanço de tal ideia nos trouxe, parece-me, ninguém tem dúvidas. Mas há sempre alguns que querem mais e não hesitam em atirar tudo ao precipício, no afã de, dos cacos, apanharem uma jóia reluzente.

Sabemos, não vale a pena metermos a cabeça na areia, que a AP sofreu uma desmesurada inflação nos recursos humanos, no período a seguir à revolução de Abril, como forma de secar potenciais conflitos sociais, tal o nível a que chegou a destruição do tecido económico e, com ele, a possível horda de desempregados, não fosse a abertura de todas as portas, mesmo as que não existiam, a quem quer que se apresentasse à função pública.

Depois, temos assistido à desenfreada distribuição de lugares públicos, dos mais humildes aos mais elevados, como forma de comprar votos e garanti-los no futuro, quiçá até, dominar pontos chave do poder administrativo do Estado, ou “dividindo” o Estado em tantas partes quantas as que conseguem a imaginação e as necessidades partidárias, quer dentro da Adinistração Central, quer fora dela, criando e fazendo nascer, com mais facilidade que cogumelos, instituições e empresas públicas que prosseguem funções em cumulação com as funções públicas tradicionais para as quais existem Direcções-Gerais ou equivalentes, ou mesmo em contradição com elas, ou fingem que têm algo útil a prosseguir a par delas, e chegámos, sem dúvida, a um corpo da AP insustentável.

Nunca se viu, ou só se viu de forma tíbia, um partido político “meter o dedo na ferida” e tomar as medidas que, em minha opinião, são realmente necessárias.

Tem sido este o caminho escolhido pelos principais partidos políticos que, nos últimos tempos, ou não têm quadros capazes de analisarem as reais causas do estado a que o Estado-Administração chegou ou/e de tomarem as consequentes e necessárias medidas que ele necessita.

A manutenção do princípio de que o Estado-Administração tem de prosseguir a sua actividade pública como se privada fosse vai-nos atirar, definitivamente, lá para o fundo, onde nem cacos sobrarão.

Não há outra forma de ver o exercício da função pública (entenda-se, as funções públicas) que não seja como o exercício de uma missão, onde o objectivo primordial é servir, com desprendimento (abnegação, generosidade e independência), os que são a sua razão de existir, quer como fim, quer como meio de financiamento da mesma. De forma racional, q.b., mas não mais que isso. Sem querer dizer que quem se dedica a essa missão tenha que ser “franciscano”.

A este propósito, sem que esteja totalmente de acordo com o que a sua ironia pretende transmitir, vem bem a calhar lembrar este texto de José Saramago:

«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E, finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional.
Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.»

In Cadernos de Lanzarote - Diário III

Sunday, 22 May 2011

Cascais Trophy. Circuito Audi MedCup. Regata de 22.05.2011

Como eu vi a Regata Barlavento-Sotavento do Circuito Audi MedCup, em Cascais.
Desde cerca das onze até às cinco, andei, por vezes corri, outras fiquei sentado a molhar o calor que arrasava qualquer garganta. Ah, sim, e também a pele. Fiquei com bronze "à taxista"! Tudo para ir apanhando umas vistas da regata.
Foi um dia em cheio. Não menos que dez quilómetros calcorreados, como auto-prova de que a minha recuperação pós-operatória vai andando. Devagarinho.
Fiquem com os meus olhares.
Inté

Sunday, 15 May 2011

Dando passos por Benfica - Catedrais lado a lado

De um lado, a (principal) catedral de consumo lisboeta.
Para além de ponto de consumo de tempo para uma mole humana heterogénea, também serve para fazer as mais diversas compras.
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Do outro lado, a Catedral do Futebol, em Portugal.
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Saturday, 14 May 2011

Uhmmm, ai que rabinho tão espinhoso!

Percebeu o título?
A tábua e a tartaruga, o sol e a sombra.
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LA TORTUGA

que
anduvo
tanto tiempo
y tanto vio
con
sus
antiguos
ojos,
la tortuga
que comió
aceitunas
del más profundo
mar,
la tortuga que nadó
siete siglos
y conoció
siete
mil
primaveras,
la tortuga
blindada
contra
el calor
y el frío,
contra
los rayos y las olas,
la tortuga
amarilla
y plateada,
con severos
lunares
ambarinos
y pies de rapiña,
la tortuga
se quedó
aquí
durmiendo,
y no lo sabe.

De tan vieja
se fue
poniendo dura,
dejó
de amar las olas
y fue rígida
como una plancha de planchar.

Cerró
los ojos que
tanto
mar, cielo, tiempo y tierra
desafiaron,
y se durmió
entre las otras
piedras.

Pablo Neruda

Sunday, 1 May 2011

Deitar contas à vida


Se a minha memória não me atraiçoa, há algumas décadas que não se via um 25 de Abril e um 1º de Maio como os deste ano.

E algo me diz que este ano foi só, para ambos, o início do trajecto até ficarem enterrados a 2 metros de profundidade, num qualquer cemitério das revoluções iniciadas nos anos 60 do século passado e que, neste cantinho à beira-mar plantado, culminaram com a efectuada a 25 de Abril de 1974.

As comemorações do 25 de Abril, é o que se tem visto desde há meia dúzia de anos. Ano a ano, mais se arrastam para terem uma cerimónia de cariz nacional. Longe vai o sonho de alguns em o sustituirem ao 10 de Junho.

O 1º de Maio, nem se arrastou. Foi um ar que lhe deu de uma só vez.

Hoje, num momento em que o país se diz em austeridade, as grandes e médias superfícies comerciais apresentavam-se como qualquer outro domingo, quiçá com mais movimento de pessoas atarefadas em gastar os euros das austeridades pessoais em produtos provenientes da Europa que se pergunta se nos deve apoiar com mais euros para lhes comprarmos mais produtos ou, pior ainda, “made in China”, desenvolvidos pelo capital e know how de algumas grandes empresas europeias (mas não só) que para isso tiveram que se decidir por desempregar europeus a troco de “algumas tigelas de arroz” no outro lado do globo.

Lojas cheias, muitas promoções a apelar às oportunidades de uma compra pelo Dia da Mãe, pelo dia disto, ou apenas por aquilo, porque todos os motivos são bons para vender, “trabalhadores” a fazer aquilo para que são pagos sem um pequeno remorso na alma ou um único neurónio a lembrar o longínquo dia 1 de Maio de 1886 de Chicago.

Este país necessita, definitivamente, de deitar contas à vida.